22 de janeiro de 2012

Sexualidade na Escola: a necessidade de superar tabus

Temas relacionados à sexualidade precisam ser apresentados aos adolescentes, de forma a esclarecer dúvidas e superar tabus.

1. Introdução:

Atualmente, a mídia veicula campanhas sobre a necessidade de esclarecimentos por parte da escola, a crianças e adolescentes, sobre as implicações de uma sexualidade exacerbada, cuja manifestação chega em algumas vezes ao exagero por parte dos mesmos.

Aos profissionais da educação, como um todo, cabe a tarefa de buscar a solução das dúvidas que seus alunos apresentam e de uma forma clara, sem tentar fugir das respostas aos questionamentos quando estes são colocados por seus alunos, procurando manter uma postura informativa, orientativa, de modo a esclarecer e orientar os alunos.

O presente texto procura discutir esse cotidiano, a partir da realização de pesquisa bibliográfica em textos, artigos veiculados na internet, cadernos veiculados pelo governo federal, PCN’s, sem, no entanto apresentar a solução final e imediata para tantos problemas relacionados ao tema sexualidade, tais como o desenvolvimento do próprio corpo, as  transformações  por  que  passam as crianças quando estão se tornando adolescentes, as questões da gravidez na adolescência as doenças sexualmente transmissíveis, as diferentes formas de representação da sexualidade e, especialmente, procura-se discutir aqui, a necessidade da interação entre família e escola na busca por soluções nesse campo.


2. Sexualidade na Escola: a necessidade de superar tabus

A sexualidade faz parte da vida do ser humano. Isso é ponto passivo. Não há como discutir tal fato. O cotidiano escolar se depara a todo instante com a exigência de saber lidar com a sexualidade, não só por meio das atitudes dos alunos, mas também e especialmente através de sua fala.

O linguajar infantil e adolescente é recheado de expressões dúbias, por vezes repetidas sem que se conheça de fato o seu significado, por ter ouvido falar em seus grupos de convívio ou na rua, ou ainda, através de programas de televisão, uma vez que hoje a televisão funciona como uma babá eletrônica em conjunto com o computador, onde através da internet, crianças e jovens se deparam o tempo todo com sites os mais diferenciados.

No entanto e, apesar de todas essas ocorrências, falar sobre sexualidade é invadir um terreno fértil em tabus e reticências. Muito se fala em discutir a sexualidade, porém pouco se discute a sexualidade de fato, dentro das famílias, nas comunidades religiosas ou na escola e,

[...] Todas essas questões são trazidas pelos alunos para dentro da escola. Cabe a ela desenvolver ação crítica, reflexiva e educativa.[...] A oferta, por parte da escola, de um espaço em que as crianças possam esclarecer suas dúvidas e continuar formulando novas questões contribui para o alívio das ansiedades que muitas vezes interferem no aprendizado dos conteúdos escolares.” (PCN’s, 1997, v.10)


2.1 Iniciativas Governamentais Sobre A Sexualidade Nas Escolas

Tentando superar essa dicotomia, o Governo Federal instituiu na coletânea Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s), criada  nos anos  1990,  dois  volumes dedicados a apresentar os chamados temas transversais, que tratam de questões que permeiam várias disciplinas.

O volume 8 é dedicado à Apresentação dos temas transversais e à ética e, o volume 10, dedicado aos temas transversais que são a Pluralidade Cultural, Meio Ambiente, Saúde e Orientação Sexual e, que devem permear todas as disciplinas, uma vez que noções como “[...] Respeito Mútuo, Justiça, Diálogo e Solidariedade são valores referenciados no princípio da dignidade do ser humano, um dos fundamentos da Constituição brasileira”. (PCN’s, 1997, v. 8)

Essa iniciativa surgiu como uma forma de buscar preencher a lacuna na formação dos profissionais da educação básica, de maneira a oferecer subsídios para que tais discussões aconteçam de fato no cotidiano pedagógico e não apenas quando uma criança ou adolescente se refere ao colega com palavras consideradas de baixo calão, mas que na verdade são recheadas de conotações sexuais, utilizando termos que às vezes nem sabe dizer o que significa, falando apenas por que ouviu alguém falar.

Fica claro que é necessário que se tome uma atitude no sentido de buscar formas de trabalhar com tais questões junto às crianças e adolescentes e, fica claro ainda o fato de que

A escola não muda a sociedade, mas pode, partilhando esse projeto com segmentos sociais que assumem os princípios democráticos, articulando-se a eles, constituir-se não apenas como espaço de reprodução mas também como espaço de transformação (PCN’s, 1997, v.8).

Ou seja, se a família, se a sociedade não se organizarem na busca de soluções  para  problemas  que continuam atuais e que estão postos, quais sejam, a iniciação sexual precoce, a gravidez na adolescência, o contágio por doenças sexualmente transmissíveis, não é a escola que vai conseguir resolver tal situação por si só.

De acordo com Nachard (2010), essa iniciativa, a da busca de informação e formas de ação de como lidar com assuntos que dizem respeito da sexualidade na escola, surge buscando tentar esclarecer essas práticas.

Demonstra ainda, que é preciso alertar para a necessidade real e imediata do acesso à formação específica, por parte de todos os profissionais da educação, sem permitir que alguns fujam de sua responsabilidade, já que compete a todos educadores passar informações verdadeiras a seus educandos. Desta forma estaremos contribuindo para que crianças e jovens possam desenvolver e exercer sua sexualidade com prazer e responsabilidade.

No entanto, é preciso considerar que a escola não pode suprir todas as lacunas de informação com que as crianças às vezes chegam. A escola não pode e não deve ocupar o espaço que pertence à família e esta deve ser chamada a reassumir o seu papel.

2.2 O Papel da Família Em Relação À Sexualidade

A família tem um papel importante com que se preocupar, não sendo possível relegar esse papel a um segundo plano e, muito menos delegar suas responsabilidades a outras instituições, tais como Igreja e/ou Escola, que já possuem responsabilidades junto a essa clientela jovem, mas num outro patamar de atuação.

É extremamente necessário deixar claro que o papel que deve ser efetivamente cumprido pela escola é o de propiciar uma discussão que “[...] Diferencia-se também da educação realizada pela família, pois possibilita a discussão de diferentes pontos de vista associados à sexualidade, sem a imposição de determinados valores sobre outros.” (PCN’s, 1997, v. 8)
Assim, a família precisa ter consciência de que ela deve ser a primeira fonte onde seus filhos devem buscar informações que só assim chegarão de maneira clara. Nesse caminho e, ainda de acordo com Nachard, o papel da Escola é abrir espaço para que a pluralidade de concepções, valores e crenças sobre a sexualidade possa se expressar. O trabalho de orientação sexual, compreende a ação da Escola como complementar à educação dada pela família. O professor, mesmo sem perceber, transmite valores com relação à sexualidade no seu trabalho cotidiano, inclusive na forma de responder ou não às questões mais simples trazidas pelos alunos. Afirma-se, portanto, a real necessidade do educador ter acesso à formação específica para tratar de sexualidade com crianças e jovens na escola, possibilitando a construção de uma postura profissional e consciente no trato desse tema (CEV).

Essa é uma atenção que deve ser dada especialmente na fase adolescente, quando a criança deixa de ser criança, mas ainda não é adulta e se vê as voltas com um turbilhão de transformações e a primeira fonte de informações não deve ser uma fonte estranha, externa ao que a criança ou o adolescente encaram no dia-a-dia.

Esse período é recheado de mudanças, marcado por incertezas e, a fuga a esclarecimentos necessários contribuirá ainda mais para a instalação dessas incertezas, ou na busca por respostas que não serão tão esclarecedoras quanto seria necessário nessa fase tão difícil e tão importante na vida de cada um.

[...] A escola ao propiciar informações atualizadas do ponto de vista científico e explicitar os diversos valores associados à sexualidade e aos comportamentos sexuais existentes na sociedade, possibilita ao aluno desenvolver atitudes coerentes com os valores que ele próprio elegeu como seus. (PCN’s, 1997, v. 10)

No entanto, fica claro que, por mais que a escola seja informativa, que apresente um programa onde a orientação sexual seja tratada de maneira adequada, a informação individualizada, atenciosa, voltada especialmente para aquela criança ou jovem que a solicita, tem toda a possibilidade de ser fornecida dentro de casa, se nessa casa houver diálogo.

De acordo com o disposto no Programa Agrinho (2008), pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, a adolescência, no Brasil, vai dos 13 aos 18 anos de idade. A adolescência é uma atitude sociocultural, durante a fase do desenvolvimento, na qual as pessoas devem refletir as expectativas do meio em que vivem. Essa fase, é quase sempre, simultânea à puberdade, que tem um aspecto biológico, caracterizado pelas modificações  visíveis,  como  crescimento   rápido,   aumento   da   massa corporal, desenvolvimento das mamas e o surgimento das indesejáveis espinhas e de alterações nos odores que o corpo exala (p. 57).

Pode-se perceber, por essas colocações, que nessa fase, a criança se transforma num ser em constante ebulição, onde qualquer situação adquire uma dimensão por vezes exagerada,  e tal fato pode ser comprovado através da noção de que ser adolescente não é fácil. É viver numa fase em que não se é adulto nem criança. É um período de mudanças radicais no corpo e no comportamento – como o início do namoro –, até que se atinja a maturidade física e emocional. Como é natural aos jovens nessa faixa de idade, eles querem liberdade para descobrir o mundo e envolvem-se em aventuras na busca de auto-afirmação. Mas esse período exige responsabilidades com relação à sexualidade, movida por um turbilhão de hormônios, e à escolha das companhias, determinantes na formação da personalidade. Na adolescência, as alterações hormonais também têm grande influência no humor (Idem, p. 57).

Todos que passaram pela adolescência e ainda se lembram desse evento devem procurar estar atentos aos sinais de alerta emitidos pelos adolescentes, para tentar realizar alguma intervenção quando esta se fizer necessária, especialmente a família, que é o núcleo onde a criança e/ou o adolescente passa uma boa parte do seu tempo.

3. Considerações Finais:

O século XXI já se encontra em sua segunda década, mas a sexualidade ainda é tabu. Muito se fala em sexo, mas ainda pouco se orienta de fato. Pouquíssimo se informa.

Prova disso é a presença constante na mídia de notícias envolvendo a criança e o adolescente às voltas com gravidez indesejada, vítimas de violência sexual, portando doenças sexualmente transmissíveis.

Está mais do que claro que é preciso uma atuação conjunta de família e escola na tentativa de efetivamente combater essa situação, pois a família não tem conseguido cumprir com seu papel que é o de educar seus filhos, de transmitir a eles noções sobre sexualidade e comportamento.

Tal quadro demonstra também que à escola compete sim fazer com que, através dos profissionais da educação, as informações cheguem de maneira clara e informativa às crianças e adolescentes.

No entanto e, infelizmente, ainda há um longo caminho a ser percorrido, especialmente no que diz respeito à formação específica dos profissionais da educação, que ainda se vêem presos a tabus e deficiências e informação em sua própria formação, de maneira a que possam superar tais deficiências, para que possam efetivamente trabalhar com seus alunos e apoiá-los no que diz respeito a atender às suas dúvidas quando elas se fizerem presentes, de forma clara, sem subterfúgios e, de uma maneira atualizada, sem estar presos a materiais meramente didáticos.

4. Referências Bibliográficas: 

BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: apresentação dos temas transversais, ética. Secretaria de Educação Fundamental. – Brasília; MEC/SEF, 1997. 146 p.

-----------. Parâmetros Curriculares Nacionais: pluralidade cultural, orientação sexual. Secretaria de Educação Fundamental. – Brasília: MEC/SEF, 1997. 164p.

----------. Parâmetros Curriculares Nacionais: apresentação dos temas transversais – terceiro e quarto ciclos do Ensino Fundamental. – Brasília: MEC/SEF, 1998. 436 p.

DST/AIDS. Educação e Saúde. Mudando Atitudes. CNTE.CUT - BRASIL. Internacional da Educação. Folder. 2011

NACHARD, Leni Mércia. Sexualidade na Escola. Artigo. Disponível em: cev.org.br/biblioteca/sexualidade_escola. Acesso em 09/11/2011 às 12h45min

Programa Agrinho: saúde: caderno do professor – Brasília: LK Editora e Comércio de Bens Editoriais e Autorais Ltda., 2008. 120 p.: il


5. Agradecimentos: 

A Deus, por propiciar a fé e a coragem de estarmos sempre nos reinventando nos caminhos da educação.



Autoras: 

Jaqueline Assis de Paula
Professora da rede municipal de ensino de Lambari d’Oeste  - MT

Lenir Medeiros dos Santos
Professora da rede municipal de ensino de Lambari d’Oeste  - MT
Download
Compartilhe: